O futebol não pode ser refém das Bets

Durante muito tempo, falar de Bets no futebol brasileiro parecia quase impossível. Elas estavam nas camisas, nas placas de publicidade, nas transmissões, nos programas esportivos e até na conversa entre torcedores. Apostar passou a ser apresentado como parte da experiência de assistir a um jogo. Mas não é.

E o R52 se posiciona contra a transformação do futebol em uma vitrine permanente para as apostas.

Não estamos falando apenas de dinheiro perdido em uma aposta que deu errado. Estamos falando de torcedores que começam apostando alguns reais e, pouco a pouco, passam a perseguir o prejuízo, aumentar os valores e comprometer dinheiro que deveria estar destinado à própria família.

Uma pesquisa do Procon-SP, realizada com 2.724 consumidores entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, mostrou que 39,7% dos apostadores entrevistados disseram ter se endividado depois de começar a utilizar sites de apostas. Mais da metade afirmou ter comprometido boa parte da renda, utilizando dinheiro aplicado ou até empréstimos para jogar.

Isso precisa ser encarado de frente. Porque o problema das Bets não termina quando o árbitro apita o fim da partida. Ele pode continuar dentro de casa. Pode estar no cartão de crédito, no salário que desapareceu, na dívida que aumentou, na discussão familiar e na ansiedade de quem acredita que a próxima aposta será capaz de recuperar tudo aquilo que já perdeu.

O próprio Ministério da Saúde reconhece que o transtorno relacionado ao jogo pode envolver perda de controle, ansiedade, alterações no sono e no humor, conflitos familiares, isolamento e prejuízos nas relações pessoais e profissionais. A pasta também informou que os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025.

E existe uma questão que incomoda ainda mais quem ama futebol.

A aposta está sendo colocada dentro da paixão.

O torcedor não precisa apenas assistir ao Fluminense. Ele é constantemente convidado a apostar no resultado, no número de escanteios, no próximo jogador a marcar, no cartão, no intervalo, no próximo lance. A partida deixa de ser apenas uma partida.

Cada lance passa a carregar um possível ganho ou uma possível perda. E isso muda a maneira de consumir o esporte.

O Ministério da Fazenda chegou a determinar que as próprias propagandas de apostas tragam advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”.

Se é necessário colocar esse tipo de alerta em uma propaganda, talvez já exista aí uma pergunta que o futebol deveria ter feito há muito tempo: até onde vale transformar a paixão do torcedor em oportunidade comercial para uma indústria de apostas?

E aqui chegamos ao ponto mais delicado para nós, tricolores.

O Fluminense renovou em março sua parceria com a Superbet até 2029. O acordo prevê R$ 53 milhões fixos por temporada, podendo chegar a R$ 86 milhões anuais com bônus.

É muito dinheiro. Dinheiro importante para um clube de futebol.

Dinheiro que pode ajudar a contratar jogadores, manter estrutura, investir no futebol feminino, nas categorias de base e em toda a operação de uma instituição do tamanho do Fluminense. Mas justamente por sermos torcedores e jornalistas que acompanham o clube, precisamos ter coragem para fazer uma pergunta incômoda: quanto vale uma camisa do Fluminense quando, ao mesmo tempo, parte da nossa própria torcida pode estar sendo prejudicada por aquilo que ela anuncia?

Não se trata de atacar o Fluminense. Muito menos de fingir que clubes vivem de boas intenções. O futebol é uma indústria, precisa de receita e precisa encontrar patrocinadores.

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Mas o futebol também é formado por pessoas.

E o torcedor não pode ser visto apenas como consumidor. Ele é pai, mãe, filho, trabalhador, estudante, aposentado. É alguém que muitas vezes já enfrenta dificuldades financeiras e que pode ser seduzido pela promessa de ganhar dinheiro fácil. A propaganda não vende apenas uma aposta.

Ela vende a sensação de que você pode acertar o próximo resultado. E é justamente aí que mora o perigo.

O Ministério da Saúde informa que, em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa citada pela pasta, enquanto 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.

São números grandes demais para serem tratados como simples entretenimento.

E o futebol não pode lavar as mãos.

Nós, do R52, entendemos que o torcedor merece poder assistir ao seu time sem ser constantemente estimulado a colocar dinheiro em jogo.

Queremos falar de escalação, de tática, de gols, de títulos.

Não queremos que cada partida seja acompanhada pela pergunta: “Quanto você vai apostar?”. Porque futebol deveria provocar emoção pelo que acontece dentro de campo. Não pela expectativa de ganhar dinheiro com aquilo que acontece dentro dele.

E sim, existe uma contradição quando um clube pode perder milhões em receitas por causa das Bets. Mas talvez essa seja justamente a oportunidade de o futebol brasileiro começar a procurar novos caminhos.

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A camisa do Fluminense já teve inúmeras empresas estampadas em seu peito e continuará tendo outras no futuro.

O torcedor, porém, continuará sendo o mesmo.

É por ele que o R52 escolhe levantar essa discussão. Porque quando a paixão pelo futebol começa a ser usada como porta de entrada para um comportamento que pode destruir a vida financeira e familiar de uma pessoa, precisamos parar de tratar o assunto apenas como negócio.

O dinheiro do patrocínio é importante. Mas a saúde, a dignidade e a tranquilidade do torcedor precisam valer muito mais.

Futebol é paixão.
Aposta é risco.
E não podemos permitir que uma coisa seja confundida com a outra.

Por Greidson Campos – Jornalista – Portal R52

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