O futebol brasileiro voltou a expor um dos seus problemas mais antigos: as dívidas que se acumulam dentro e fora de campo. Mais da metade dos 40 clubes das Séries A e B apresentou algum tipo de débito na prestação de contas entregue à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF).
Os débitos envolvem diferentes áreas e mostram que o problema financeiro continua atingindo boa parte dos clubes brasileiros. Entre as pendências declaradas estão dívidas com órgãos governamentais, jogadores, treinadores e outros clubes.
O levantamento foi realizado pela agência reguladora, criada em 2026 justamente com a missão de acompanhar a situação financeira das instituições que disputam as principais divisões do futebol nacional.
A quantidade de clubes com pendências reforça uma realidade conhecida há anos: mesmo com receitas cada vez maiores provenientes de televisão, patrocínios, bilheteria, premiações e negociações de jogadores, muitos clubes continuam convivendo com dificuldades para equilibrar suas contas.
ANRESF estabelece calendário de fiscalização
A agência estabeleceu três períodos de corte ao longo do ano para acompanhar a situação financeira dos clubes.
O primeiro prazo originalmente estava previsto para o fim de março. No entanto, após dois adiamentos solicitados pelos próprios clubes, a entrega foi encerrada em 11 de maio, considerando os débitos existentes até aquele período.
A segunda prestação de contas teve como data de referência 30 de junho, com a documentação sendo apresentada no fim de julho.

O último levantamento do ano terá como ponto de corte 31 de outubro, enquanto a entrega está prevista para o fim de novembro.
A ideia é evitar que a situação financeira dos clubes seja analisada apenas uma vez por temporada. Com três verificações anuais, a agência pretende acompanhar a evolução das dívidas e identificar possíveis problemas antes que eles se transformem em situações ainda mais graves.
Dívidas entre clubes também preocupam
Um dos pontos mais delicados está nas obrigações entre as próprias equipes.
Transferências de jogadores, parcelas de negociações e outros compromissos financeiros podem gerar uma cadeia de dívidas. Quando um clube deixa de pagar outro, o problema pode se espalhar pelo mercado e afetar justamente instituições que também dependem desses recursos para manter suas atividades.
O mesmo acontece com salários e direitos de jogadores e treinadores.
A existência de débitos dessa natureza não representa necessariamente uma crise imediata, já que muitos compromissos podem estar sendo renegociados ou possuir cronogramas de pagamento. Entretanto, a quantidade de clubes com pendências demonstra que o problema está longe de ser pontual.
Um velho problema do futebol brasileiro
O cenário reforça uma discussão que acompanha o futebol brasileiro há décadas: como aumentar a arrecadação sem permitir que o crescimento das receitas seja acompanhado pelo crescimento descontrolado das despesas?
A chegada de novas fontes de investimento, o crescimento dos valores de direitos de transmissão e as grandes negociações de atletas fizeram o futebol movimentar cifras cada vez maiores.
Ainda assim, muitos clubes continuam gastando acima da capacidade de pagamento.
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O resultado é uma bola de neve.
Uma dívida com jogador pode gerar processo. Uma obrigação não cumprida com outro clube pode dificultar futuras negociações. Débitos tributários podem se acumular durante anos. E, quando todos esses problemas aparecem simultaneamente, o impacto ultrapassa o departamento financeiro e chega diretamente ao futebol.
É nesse cenário que a atuação de uma agência reguladora ganha importância.
Fiscalização será determinante
A ANRESF ainda está no início de sua atuação, mas o primeiro panorama já demonstra o tamanho do desafio.
Mais da metade dos clubes das duas principais divisões nacionais apresentou algum tipo de dívida na prestação de contas. Isso não significa que todos estejam em situação financeira crítica, mas revela que a saúde econômica dos clubes brasileiros continua sendo um problema estrutural.
O próximo levantamento, com data de corte em 31 de outubro, poderá mostrar se houve redução ou aumento dessas pendências.
Mais importante do que simplesmente identificar os devedores será acompanhar se os clubes estão efetivamente conseguindo cumprir seus compromissos.
Porque o futebol brasileiro já aprendeu, muitas vezes da maneira mais dolorosa, que uma temporada de grandes contratações pode ser comemorada por alguns meses, enquanto uma dívida mal administrada pode permanecer durante anos.
No fim das contas, não basta montar um grande time dentro de campo. Para que um clube seja sustentável, também precisa vencer a partida mais longa e menos visível de todas: a batalha contra as próprias contas.
Greidson Campos
Jornalista – Portal R52
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